08 novembro 2007

trouxe mesmo areia nos sapatos...

Andar três dias consecutivos em cima das dunas de areia só podia ter este resultado. Por mais que me descalçasse de vez em quando, por mais que sacudisse os ténis, por mais que os batesse numa parede ou num muro, houve grãos que fizeram daqueles recantos os seus novos lares, como se fossem, desde há muito, os seus habitats naturais. Mesmo com 1500 quilómetros de viagem e algumas caminhadas, estes mantiveram-se, persistentes, nos meus ténis. Na prática, não fizeram nada que não seja natural. Evadiram-se de África, de forma ilegal, rumo ao paraíso anunciado europeu. Como tantos africanos, que diariamente se lançam ao Mediterrâneo em busca do El Dorado que pensam encontrar do outro lado do mar, numa Europa conhecida pela sua prosperidade, os grãos de areia esconderam-se nas profundezas dos meus sapatos. Mas eu pactuei com todo este processo sombrio e marginal. Mesmo sabendo que trazia companhia, não fui capaz de os expulsar por completo. Agora, bem, agora devem estar no meio do meu quarto, ainda dentro de um par de ténis abandonado que espera, ansiosamente, pela hora do banho...

1 comentário:

Fenómeno disse...

então e camelos, não troxeste nenhum?